Preocupação excessiva, sintomas de estado elevado de ansiedade

A ansiedade e o medo são respostas inerentes ao processamento de uma ameaça, sendo uma resposta natural de enfrentamento diante dos desafios da vida.

Vou abordar os aspectos psicoterapêuticos do Transtorno de Ansiedade Generalizada, conhecido também como TAG, sob a perspectiva da Terapia Cognitivo Comportamental. A ansiedade e o medo são respostas inerentes ao processamento de uma ameaça, sendo uma resposta natural de enfrentamento diante dos desafios da vida. No TAG, como nos outros transtornos de ansiedade, a ansiedade é vivenciada de forma persistente, incapacitante, com suas preocupações excessivas com tudo (situações e/ou eventos de vida), na maior parte das atividades diárias, por longos períodos de tempo. Pacientes com preocupações excessivas podem passar longos anos sem diagnóstico definitivo, e assim o quadro de preocupações excessivas perdura por longos anos. Ainda existe a possibilidade de suas preocupações passarem despercebidas pelo olhar “clínico”, como algo relacionado a um transtorno de ansiedade, pois pacientes com características de TAG muitas vezes recorrem a cuidados médicos em geral por queixas isoladas relacionadas a algum sintoma somático (pelo fisiológico), por exemplo: distúrbios gastrointestinais, diarreia crônica, tensão muscular, dores físicas, insônia, sentimento de estar “estressado” e de se “preocupar demais”. Entre as principais causas relacionadas ao TAG, estão as variáveis do modelo de vulnerabilidade biológica à ansiedade (condições individuais genéticas, neurofisiológicas, e de temperamento, que geram vulnerabilidades cognitivas e biológicas) determinaria a resposta a situações adversas de vida vivenciadas pelo indivíduo. Outros fatores inter-relacionados, como psicossocial, hereditário (componente familiar), além de eventos traumáticos em si, estariam envolvidos na gênese e manutenção do transtorno, como também os próprios os recursos comportamentais e cognitivos utilizados pelos indivíduos para lidar com a ansiedade. A ansiedade generalizada, está relacionada basicamente a preocupações excessivas. Sendo caracterizada por um padrão de preocupação e ansiedade frequente, persistentes, desproporcionais ao impacto do acontecimento ou da circunstância que é o foco da preocupação. A diferença entre ansiedade normal e a ansiedade patológica dentro do quadro do TAG, está no quesito de sua intensidade. Vamos aos critérios: A. ansiedade e preocupação excessivas (expectativa apreensiva), ocorrendo na maioria dos dias por pelo menos seis meses, com diversos eventos ou atividades (tais como desempenho escolar ou profissional). B.O indivíduo considera difícil controlar a preocupação. C. A ansiedade e a preocupação estão associadas com três (ou mais) dos seguintes seis sintomas (com pelo menos alguns deles presentes na maioria dos dias nos últimos seis meses).1. Inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele.2. Fatigabilidade.3. Dificuldade em concentrar-se ou sensação de “branco” na mente.4. Irritabilidade.5. Tensão muscular.6. Perturbação do sono (dificuldade em conciliar ou manter o sono, ou sono insatisfatório e inquieto). D. A ansiedade, a preocupação ou sintomas físicos causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. Muitas vezes, os sintomas de preocupação são interpretados pelo paciente como um comportamento funcional. Assim, preocupar-se com diversos aspectos da vida, ou com diversas situações, significa que eles exercem certo controle sobre os problemas, e que, portanto, devem ter esse padrão de enfrentamento, caso contrário falharão, ou vão sofrer consequências negativas. Em muitos casos, o quadro aparece como um traço de sua personalidade que justifica muitos de seus comportamentos.

A maioria dos pacientes com TAG apresenta preocupação com “quase tudo”, de forma generalizada. As preocupações de um paciente com TAG são comuns às de outras pessoas. Porém, indivíduos com TAG ficam apreensivos com “preocupações menores”, sobre diversos aspectos da vida (situações do dia a dia, família, relacionamentos, trabalho, finanças pessoais, escola etc.) Um outro exemplo: paciente tem preocupação com a saúde: “E se eu tiver câncer?”. Em seguida, pode se preocupar com a família e as finanças. “Quem cuidará dos meus filhos, quando eu morrer?”; “Será que eles serão amparados?”; “E se minha família não conseguir pagar as despesas do enterro?”. Os pacientes têm uma tendência a se preocupar com coisas que terão um desfecho improvável, imaginando os piores cenários, envolvendo acontecimentos futuros que ainda não aconteceram, ou que provavelmente nunca acontecerão. O tratamento ocorre com base na intolerância à incerteza; crenças positivas sobre preocupação; orientação negativa para resolução de problemas; e evitação cognitiva. O cliente muitas vezes possui crenças negativas sobre não conseguir tolerar desfechos incertos levam os indivíduos a interpretarem as situações ambíguas ou incertas como negativas, estressantes ou perigosas. O principal efeito da intolerância à incerteza é tentar prever o máximo possível de desfechos percebendo pensamentos do tipo “e se…”, que geram altos níveis de preocupação. Nos indivíduos com TAG, as preocupações podem estar voltadas a eventos externos (saúde de um familiar, segurança própria, certos sintomas físicos),quando são tipicamente usadas como forma de enfrentamento. Com a preocupação negativa sobre o próprio ato de preocupar-se (ou seja, preocupação da preocupação), uma pessoa acredita que precisa parar de se preocupar, pois poderia sofrer consequências ruins, desenvolver doenças físicas, ou problemas psicológicos. Segue algumas crenças positivas sobre a preocupação, que levam a um estado de ansiedade: 1 – preocupar-se ajuda a chegar a solução de problemas; 2 – preocupar se faz aumentar a motivação para conseguir realizar as tarefas; 3 – preocupar-se com algo antecipadamente pode diminuir a reação negativa se o acontecimento vier a ocorrer; 4 – preocupar-se com as coisas e com a própria preocupação pode prevenir acontecimentos negativos de se realizarem; 5 – preocupar-se demonstra que a pessoa é responsável e que se importa com as coisas. Um estado de ansiedade se inicia, quando há orientação negativa (disfuncional) para solucionar problemas. Duas características são notadas aqui: o indivíduo se vê como agente da solução de problemas, e logo considera que habilidades serão necessárias para resolvê-lo. Por exemplo: definir o problema, as metas, gerar alternativas, escolher a solução e testar sua afetividade. Os indivíduos com TAG sabem resolver os problemas, porém têm dificuldades de fazê-lo, pois apresentam um conjunto de cognições negativas que os bloqueiam quando encaram os problemas de frente. Veem os problemas como ameaças, duvidando das suas habilidades de resolvê-los, sendo pessimistas quanto aos resultados obtidos. O último ponto é a evitação cognitiva: o indivíduo usa estratégias para se afastar do que considera aversivo. O modelo de intolerância à incerteza traz o conceito de que o TAG é um transtorno movido por preocupação invasiva, incontrolável e excessiva, considerando a preocupação como o foco principal. Os sintomas somáticos são entendidos como uma consequência da preocupação patológica, como agitação, nervosismo, sentir-se no limite, ficar exausto facilmente, brancos na mente, irritabilidade, tensão muscular etc. No modelo cognitivo da intolerância à incerteza, os sintomas somáticos não são o foco; porém, toda mudança no processo da preocupação patológica terá como consequência a redução das preocupações, e, portanto, a redução dos sintomas somáticos. A terapia cognitivo-comportamental usa uma variedade de técnicas para mudar o pensamento, o humor e o comportamento. Embora estratégias cognitivas como o questionamento socrático e a descoberta guiada sejam centrais para a terapia cognitivo-comportamental, as técnicas comportamentais e de solução de problemas são essenciais, assim como são as técnicas de outras orientações que são implementadas dentro de uma estrutura cognitiva. No entanto, a terapia varia consideravelmente de acordo com cada paciente, com a natureza das suas dificuldades e seu momento de vida, assim como seu nível intelectual e de desenvolvimento, seu gênero e origem cultural. O tratamento também varia dependendo dos objetivos do paciente, da sua capacidade para desenvolver um vínculo terapêutico consistente, da sua motivação para mudar, sua experiência prévia com terapia e suas preferências de tratamento, entre outros fatores.

Referências bibliográficas

DUGAS, M. J.; ROBICHAUD, M. Tratamento cognitivo-comportamental para o transtorno de ansiedade generalizada: da ciência para prática. Rio de Janeiro: Cognitiva, 2009.

RANGÉ, B. Psicoterapias cognitivo-comportamentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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