Para morar nos EUA, mais brasileiros se arriscam entre a travessia ilegal e a deportação

Nos cinco primeiros meses deste ano, 21,9 mil brasileiros foram detidos pelos agentes da fronteira após cruzar ilegalmente a fronteira do México com os Estados Unidos. O Brasil é o 8° país de origem de imigrantes irregulares para os EUA pela fronteira.

De acordo com os dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, foram registrados ao todo 180.034 migrantes, a maioria adultos solteiros, em maio. O número subiu ligeiramente de 178.854 em abril e 172.000 em março.

O volume atual de brasileiros na rota migratória irregular supera, inclusive, a alta de 2019, quando 18 mil deles entraram irregularmente no país, o que justificou a decisão do então presidente Donald Trump de incluir os cidadãos do Brasil em um processo de deportação sumária, algo que não ocorria há décadas.

Para se ter ideia do tamanho desse fluxo, é como se os agentes de migração dos EUA encontrassem, em média, 150 brasileiros por dia tentando acessar o país a pé.

“Uma vida mais digna”

Um desses é R.L*., que foi mês passado com a família (esposa e dois filhos menores) “em busca de uma vida mais digna para a família”, disse. O funcionário público contou sobre a travessia  com exclusividade ao Gazeta News.

Disse que saiu de Governador Valadares no dia 29 de maio, passou por Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, México até chegar à fronteira. Lá, atravessaram uma cerca e havia uma patrulha com agentes de imigração. Se entregaram e foram para um local tipo uma delegacia. “Havia várias celas, tipo celas de cadeia. Homens são separados das mulheres e crianças”, destaca.

Segundo ele, o tratamento é desumano e a comida horrível. “O que salvou foi o suco e biscoito”. Para deitar, tem um colchonete no chão e recebem tipo uma folha de papel alumínio pra cobrir. “Não chega nem ser um cobertor térmico, frio demais lá, a gente não toma banho”, conta.

Depois de aguardar nesse local por uns dias, os imigrantes são levados para um centro de acolhimento. “É um centro de ajuda, um tipo de ONG. Um galpão onde acolhe as pessoas, local bem acolhedor, dá comida, banho, trata com respeito, ajuda a resolver as coisas”, descreve.

Após ter seu pedido de processo imigratório iniciado, com a ressalva de comparecer para dar prosseguimento ao processo e saber se poderá ficar em território americano, o mineiro foi liberado junto com a família para Tucson, no Arizona. De lá, seguiu para Boston (MA), onde tem familiares. Ao todo, foram 14 dias e 20 mil dólares.

“Estamos testemunhando um dramático aumento da quantidade de brasileiros tentando acesso aos EUA pela fronteira com o México. Eles representam 5% de todas as detenções feitas em abril de 2021, por exemplo. E 60% deles estão em famílias completas, o que sugere ser um movimento de mudança definitiva de país”, afirmou Paul J. Angelo, especialista em migração e América Latina do Council on Foreign Relations. Há 10 anos, em 2011, apenas 472 brasileiros foram detidos na mesma condição.

Deportações

As deportações de imigrantes brasileiros detidos na fronteira e também dos que vivem ilegalmente dentro dos EUA seguem numerosas. Embora o número geral de deportações de indocumentados tenha diminuído nos últimos meses, segundo dados do Department of Homeland Security (DHS), os brasileiros ainda seguem em bom número de volta para o Brasil.

Joe Biden está quebrando recordes na direção oposta dos ex-presidentes Barack Obama e Donald Trump. Em abril, a Agência de Imigração, Alfândega e Fiscalização dos Estados Unidos concluiu apenas 2.962 remoções, o menor número já registrado. Desde fevereiro, os agentes do ICE registraram em média cerca de 2.300 prisões por mês, um quinto da média mensal em 2019, antes do início da epidemia.

A gestão Biden reiniciou voos com brasileiros deportados a Belo Horizonte (MG) em maio. Ao todo, 1.225 pessoas foram deportadas desde 2019 e há mais voos programados, uma vez que os centros de detenção na fronteira estão lotados.

Quando o imigrante é detido e depois solto dentro dos Estados Unidos, eles ficam a espera de uma data para comparecerem a um julgamento, mas apenas 13% dos cerca de 50.000 imigrantes indocumentados libertados na fronteira para dentro dos EUA sem uma data de julgamento – mas obrigados a se apresentar ao Departamento de Imigração e Alfândega – se deram ao trabalho de aparecer, disse um novo relatório informado pelo portal Axios.

Antes de serem liberados em solo americano, os imigrantes receberem uma lista de endereços e contatos para escritórios do ICE em todo o país e foram orientados a se reportar a um deles ao chegar ao seu destino para buscar autorizações de trabalho.

55.000 imigrantes foram liberados nos EUA de março a julho, mas apenas 6.700 compareceram aos escritórios do ICE até a segunda-feira, 26, disse o relatório, citando dados do Departamento de Segurança Interna.

Dos que não compareceram, 16.000 estão além do período de 60 dias que receberam como permissão quando foram presos. Cerca de 27.000 imigrantes que cruzaram a fronteira e foram libertados durante o mesmo período também não compareceram, mas ainda estão dentro da janela de 60 dias.

“Enquanto os indivíduos têm 60 dias para verificar com o ICE, muitos estão proativamente entrando em contato para começar seu processamento oficial de imigração, incluindo o recebimento de uma Notificação de Comparecimento”, disse o porta-voz do DHS, Meira Bernstein, à Axios. “Aqueles que não o fazem, como qualquer pessoa que está em nosso país sem situação legal, estão sujeitos a remoção pelo ICE.”

De acordo com a Alfândega e Proteção de Fronteiras, houve 1.078.226 encontros no ano fiscal de 2021, que vai de 1º de outubro de 2020 a 30 de setembro de 2021 – um aumento de 102% em relação ao ano fiscal de 2020.

O número de encontros tem sido especialmente alto no setor do Vale do Rio Grande. Brian Hastings, o chefe de patrulha da área, disse em uma postagem no Twitter que 20.000 imigrantes ilegais foram presos em uma semana.

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